O deputado Rubens Bueno (PPS-PR) está propondo um projeto de lei (326/11)que obriga o recém-graduado da universidade pública a prestar serviço à comunidade por 6 meses. O deputado mostra uma terrível ignorância quanto à realidade do ensino superior federal e também o total descomprometimento com a educação. É interessante perceber que uma proposta dessa ingerência parta de uma pessoa que se diz "professor", porque realizou estudos em um Curso de Letras, mas tudo se explica quando verifica-se que o tal senhor já está a mais 30 anos atuando como político. Analisemos os dois argumentos possíveis:
1) A proposta do deputado Rubens Bueno apresenta o argumento velho e desgastado de que a universidade pública serve a uma classe superior e que só há ricos nas federais. Não é verdade. Sou professora de uma universidade federal e tenho alunos que são faxineiros, empregadas domésticas. A maior parte está empregada no comércio, mesmo quando estudam de dia, cobrindo o outro período até à noite. Além do evidente cansaço, tais alunos sofrem dificuldades financeiras, porque uma universidade pública exige gastos com material e transporte. O sistema de cotas adotado, tão vulnerável às críticas da elite, abriu também vagas para segmentos sociais que não são privilegiados. Em uma universidade federal, o ingresso não ocorre somente pelo vestibular, mas também por outros processos (cada universidade escolhe o seu), que favorecem aqueles que, de alguma forma, sofrem um prejuízo social. O ENEM propõe uma medida que gradativamente trará uma certa possibilidade de igualdade no ingresso à universidade pública. Assim, o correto seria o deputado RUBENS BUENO fugir da banalização e dos lugares comuns, e fazer a lição de casa, ou seja, trabalhar com dados concretos.
2) O deputado aciona, em sua proposta, uma posição que vem da afirmação de realidades muito diferentes de nosso país. O brasileiro não se gosta, acha que tudo que é proveniente do exterior é mais bonito, mais gostoso, mais civilizado. Um eterno sentimento de inferioridade que foi muito bem representado na literatura, o que RUBENS BUENO deve saber, já que fez Letras. Pois então, é fato que as grandes universidades são pagas em países europeus e nos EUA, no entanto, estamos comparando duas culturas de extremos. O empresário brasileiro não se compromete com a Educação, não desenvolveu essa prerrogativa, e está mais preocupado com o que lhe dá lucro imediato. O PIB desses países não é comparável com o nosso. Lá, os pais abrem uma poupança para o filho quando ele nasce, para que eles possam ser enviados para a universidade. Não consigo imaginar um pai brasileiro, que ganha um ou dois salários mínimos, conseguir viabilizar em seu orçamento, uma poupança para a educação do filho. O deputado RUBENS BUENO se esquece de algo que costuma ser muito lembrado nas campanhas: em nossa realidade e legislação, A EDUCAÇÃO É RESPONSABILIDADE DO GOVERNO! Estudar em uma universidade pública não é privilégio, é direito do cidadão. O país só tem a ganhar com a profissionalização adequada dos jovens. Não se pode punir àquele que recebeu educação pública, por mérito, inclusive. As desigualdades têm que ser pensadas por outros parâmetros, ou seja, na raiz dos problemas, como as relações patrões-empregados, e os privilégios econômicos dados pelos políticos a empresários, bancários, etc.
Como sempre, a política, que hoje não mais nos espanta com os descabidos e revoltantes torneios de vaidades, vem prestar um desserviço àqueles que ela deveria servir. Os políticos precisam começar a fazer um esforço para reconquistar, no mínimo, o bom senso, senão não haverá forças ou retóricas suficientes que os faça durar. E o deputado Rubens Bueno é um bom exemplo dessa desilusão que estamos vivendo com os políticos de profissão. É um nome (RUBENS BUENO) para não se esquecer no momento adequado.
quinta-feira, 21 de julho de 2011
domingo, 12 de setembro de 2010
CORPO LÍRICO : a corporeidade do sujeito lírico
O que o corpo deseja da poesia? E o que deseja a poesia do corpo? Imerso na vertigem do presente, o poeta contemporâneo capta em seu olhar imagens desagregadas, nas quais a velocidade, a violência, a falência das relações são registradas como parte cotidiana dos tempos; é com um sentimento de impotência que tal poeta se volta para tudo e coisa alguma. Nesta condição de aderência ao presente, a poesia contemporânea constrói um sujeito fraturado que se deixa capturar pelo imediatismo do presente.
Em tempos da lógica do instantâneo, a premência da mercadoria abomina o velho, tornando obtuso tudo o que não é imediato, ao perpetrar a absoluta necessidade da aquisição do elemento novo como vital para a identificação de sua época. No entanto, este novo está sempre além, uma vez que não se fixa, e, nesta ânsia de ser contemporâneo, o presente acaba por se tornar uma armadilha. Assim, deixar-se capturar pelo presente significa estar sempre preso a uma constante sensação de anacronismo, de deslocamento de seu próprio tempo, o que implica não se definir em sua história e em sua subjetividade.
Este presente inapreensível torna-se o elemento que efetivará aquilo que Deleuze (1992) assume como a passagem da sociedade disciplinar, reflexão proposta por Foucault, para a sociedade de controle. Para Deleuze, este controle está relacionado principalmente com a hegemonia do marketing contínuo e ilimitado, levando o homem não mais ao confinamento, mas ao endividamento. Assim, sem que percebamos, em nossas próprias casas estaríamos cada vez mais sob o controle da mercadoria e, contraditoriamente, imersos em uma eterna falta. Incompletos no muito, nossas tentativas de subjetividade caminham no presente para um esvaecimento em que os objetos substituem os homens. Nada mais atual, pois, que a urgência do efêmero.
Tornados objetos, mergulhados no imediatismo, a pergunta retorna: o que deseja a poesia do corpo? O corpo é o nosso “em-si”, lugar onde nos habitamos. Na voz do Zaratustra de Nietzsche, uma das possíveis hipóteses: "Por detrás dos teus pensamentos e dos teus sentimentos, meu irmão, há um senhor poderoso, um sábio desconhecido: chama-se o Em si. Habita no teu corpo, é o teu corpo”.
Mas também é o corpo a falta, o próprio desejo, o outro que está sempre além, inalcançável: inanição, dor, dilaceramento. No eu, o tudo e o nada, a afasia permanente, a busca recorrente. Em outra palavra: Poesia, contemporaneidade. Nas palavras de Bergson, “nosso presente é antes de tudo o estado de nosso corpo”. Já o passado “é o que não age mais, mas poderia agir”; é “o que agirá ao se inserir em uma sensação presente da qual tomará emprestada a vitalidade”). Dentro desta perspectiva bergsoniana, só o corpo nos presentifica.
Sujeito, objeto, terceiro gênero. Corpo-carne, integração do eu meleau-pontyano. Local. Pelo corpo, experimentamos o todo, saímos do eu e vivenciamos a linguagem e o ambiente. Para Cristiane Greiner, “A materialização da experiência no todo é sempre, e sob quaisquer circunstâncias, mediada pelo corpo em sua integridade”. Assim, a experiência corporal sempre é cultural, sempre diz ao eu e ao outro. O corpo recategoriza a memória, que sempre retorna de maneira revisitada pelos humores deste em-si. Sujeito e objeto - pelo corpo, o todo.
Esta promiscuidade é verificável nas metáforas do corpo que vão sendo construídas e assimiladas, inclusive no vocabulário científico durante os tempos. Atualmente é comum ouvir notícias que indicam um “mercado nervoso” ou livros que remetem ao “corpo político” ou “anatomia política” ou mesmo aos “sistemas orgânicos”. As ciências “incorporaram” as metáforas corporais e as sistematizaram. O corpo está em toda parte. A poesia o acompanha.
Depois da decantada experiência de choc de Baudelaire diante da veloz e anônima multidão do século XIX, modulando a voz do poeta moderno, quais são os desafios do sujeito lírico do século XXI, no qual mesmo dentro de casa, diante da tela de um computador, tornou-se anônimo e virtual? Pierre Lévy aponta para o “hipercorpo”, corpo contemporâneo, construído, público e “quase-privado”, atualização temporária, híbrico, social e tecnobiológico. Intensificado pelos esportes, drogas. Um corpo quase meu.
Não mais o choque, mas a eterna falta. A ad infinitum experimentação linguística dos poetas contemporâneos, a necessidade de uma busca. A crítica é unânime em apontar esta lacuna: o sujeito está em falta de si mesmo. O poeta experimenta formas, e cada vez mais se imiscui da expressão da experiência do presente. Se o choque vinha pela perplexidade diante de um tempo veloz e voraz que engolia os dias, hoje este tempo se acelera, e o poeta sente em seu corpo os efeitos dessa vertigem. A morte chega mais rápido? Ainda o grande assombro do poeta é viver a velocidade do tempo e a tragédia da poesia continua sendo uma tentativa de vencer a mortalidade.
A hipótese aqui levantada é que, ao inscrever o corpo na poesia, alguns poetas buscam representar um sujeito lírico esvaecido por um tempo fugaz de ausências, lacunas e efemeridades. A inscrição da corporeidade na lírica seria, então, uma das estratégias possíveis das faltas do eu e deste tempo.
Dos poetas contemporâneos que fazem uso deste recurso, Ricardo Domeneck destaca-se por obsessivamente remeter ao corpo. Sua poesia, marcada pelos bruscos enjambements, anacolutos e elipses, em movimentos de “dissolução das formas” (Pádua FERNANDES, 2010), apresenta um estilo “anfíbio” desde o primeiro livro (Carta aos anfíbios) e uma proposta que não desvincula o estético do ético, comprometida com o presente e com as experimentações líricas. Para Heitor Ferraz (2010), a poesia de Domeneck é “tensionada, questionadora, quase sem repouso ou espaços apaziguadores para o leitor”.
Em seu livro a cadela sem Logos, de 2007, o corpo figura como uma das metáforas recorrentes. A pretensa negação do Logos leva a uma hipertrofia da reivindicação do corpo, que intenciona agir “livre das funções”, lembrando o corpo sem órgãos de Artaud, contrapondo-se à visão sistematizada de Descartes. As sinédoques apontam para o corpo partido, o sujeito em sua desfunção, em sua vulnerabilidade e dor, totalmente submetido àquilo que Domeneck chamará de acaso, um dos grandes temas da poesia deste autor.
É na dor que o corpo buscará a percepção do mundo: “o corpo/ é o repositório de/ todos os ferimentos”. A dor masoquista, causada, que aflora na epiderme, é vasculhada em todas as suas nuances, em um exercício exaustivo de reflexão. Mas esta dor não é só explorada em seu sentir, ela é recorrentemente intelectualizada, o que será representado pelos corpos partidos, ou mais especificamente pela sinédoque, traço de estilo reiterado por Ivan Marques (2007, apontando pela substituição da metáfora pela metonímia, ou pela simples exposição de argumentos, ou prosa diagramada em versos, substantivos abstratos, uso e abuso da descontinuidade e dos anacolutos.
O corpo partido está disseminado em todo o livro, não só pelo vocabulário que explora vários órgãos e partes do corpo, mas também é por ele que o poeta conduzirá a configuração de um sujeito que está fraturado, sem utilidade, longe de sua língua materna, enfraquecido. O vocabulário impregna a poesia deste livro de referências a um corpo doente, que apresenta úlceras, cistos, vertigens, cicatrizes (“a sobrevivência exige/ incoerência e cicatrizes” – verso é repetido várias vezes – com variações”), alergias, erupções, feridas, pus, eczemas, escoriações, quelóide, esclerose, pneumonia.
No entanto, também o corpo partido remete ao jogo amoroso: “enquanto ele e/ ele abrem/ a boca permitem/ a visita ao estômago/ alheio minha garganta/ de mão dupla abre/ a passagem mais/ uma vez devo bastar” (p. 11). Os corpos dos amantes, descritos em partes, confundem-se, refletem-se um no outro, o eu e o tu se entrelaçam, e o verso curto, entrecortado pelo enjambement, reforça as etapas da exploração amorosa. Aqui, este recurso estético, hoje tão evidência na Teoria da poesia, encontra uma nova função: estabelece a pausa amorosa, acariciando parte por parte do corpo no verso que lhe cabe. Volto, porém, ao corpo dolorido, metáfora do sujeito desolado contemporâneo, como o que a seguir leio mais atentamente:
a subnutrição ocorre
não
diante do esvaziamento
do continente mas na
proliferação dos
conteúdos atravesse o
rio resoluto
o distante o
erro do
horizonte magro
a corrente dos
eventos que o
carregue para
a fonte dos fatos
o desejo a dieta
de todo um
século o móvel
o inconstante o sujeito
subsista subsista
na impaciência
do objeto fixo
pele e osso meu
filho você está
pele e osso (DOMENECK, 2007, p. 40).
Fragilizado, “pele e osso”, o sujeito está constituído proporcionalmente em oposição aos objetos, uma vez que à medida que um se dissipa, o outro se multiplica. O peso dos objetos opõe-se à leveza do sujeito (“pratico/com disciplina/a subnutrição”), que inconstante em um século de dieta e desejo, ou seja, faltas, está sendo carregado não mais pelos ventos, mas pelos “eventos”, trocadilho bem ao gosto das disposições anagramáticas que perpassam a poética de Domeneck.
Este sujeito subnutrido representa-se no poema pelo verso curto, veloz, e pelos reiterados enjambements que também se formam em movimentos ambíguos, ao poderem ser lidos como justaposições, o que ratifica a tensão dos sentidos. Assim: “a subnutrição ocorre/ não/ diante do esvaziamento/do continente mas na/proliferação dos conteúdos [...]” pode ser lida de várias formas, pausadamente, ou em continuidade, cortando o verso e ao mesmo tempo dando-lhe um caráter de extensão.
O enjambement, palavra em francês que indica transpor, saltar, significa também um vão, uma suspensão. Tal pausa e continuidade, diferenças possíveis de convivência são, para Agamben, em seu já antológico texto, a marca da identidade da poesia. Os poemas teriam sempre um enjambement, mesmo que fosse o “enjambement zero”.
Esta linha de pensamento nos leva ao seguinte raciocínio: o salto seria a marca da poesia. Aqui, em Domeneck, a imagem que se coloca é a do extravasamento, um conteúdo que não se contém no continente, rio-eventos levando o anêmico sujeito que não pode lutar contra essa corrente de um tempo negativo, reiterado pelo não que se apresenta isoladamente em um verso, recurso usado em vários outros poemas de Domeneck O advérbio “não” isolado no verso, colocado em uma posição estratégica, possibilita a negação do termo anterior e posterior, ao mesmo tempo que reitera seu sentido em si mesmo.
O prefixo “sub” marca a esfera do abaixo, do que se poderia ser, e repete-se no enfático “subsistir”. Em outras palavras: existir também só é possível sem grandes esperanças. O acaso novamente impõe-se ao sujeito. Em um tempo em que tudo é falta, a poesia de Domeneck aponta para a condição de um sujeito que não tem escolhas, mas que se sujeita ao irreversível.
Em outro poema, Domeneck afirma que “a subnutrição fará de nós/contemporâneos” (p. 95). É esta “dieta”, esta leveza, que leva o sujeito esmaecido, aqui expresso a tornar-se transparente, de vidro, “ele não gosta da/sensação de saber-se/de vidro [...]” (idem, p.19), lembrando a modernidade de vidro e aço que o arquiteto Mies e o escritor Scheerbart enunciaram, materiais esses em que, para Benjamin (1986), nada se fixa, metáfora de uma época em que a aura se desfez. Para combater esse caráter escorregadio do esquecimento, é necessário resgatar o nome, pregar etiquetas nas coisas para retê-las, como os habitantes de Macondo, no livro de Garcia Marquez, fizeram no afã de não perderem de vez a referência do mundo que os cercava e de si próprios. E é isto que a poesia, talvez, esteja querendo do corpo, a inscrição do nome, do tempo e da memória.
Na segunda parte de a cadela sem Logos, a poesia-corpo de Ricardo Domeneck já se dá de maneira mais performática, uma vez que o autor deixa “instruções” claras ao leitor de como os poemas devem ser lidos:
“O usuário desta sequência, poema-livro que busca a ressonância interna e interdependência de suas partes de que falou Jack Spicer em carta a Robin Blaser, poderá obter efeitos diferentes caso sua leitura ocorra sobre um gramado e sob o sol, de ressaca, ao som de Kate Bush; ou em seu quarto, sob cobertas no inverno, ao som de Cat Power; ou em qualquer meio de transporte público ao som de Yoko Ono – se o leitor em questão (em contexto desejar aproximar-se de algumas das atmosferas em que foi composta esta sequência. Ficarei muito feliz, porém, com as novas associações que o contexto alheio, estranho ao meu, produzirá neste processo que já não me pertence.
Também gostaria de informar que estes textos cresceram por metástase.” (DOMENECK, 2007,p. 89)
Os segmentos deste poema-livro dentro do livro, aqui são denominados de faixas, ou seja, o leitor é levado a vinculá-lo ao vocabulário relacionado à música, solicitando-lhe um movimento corporal mais intenso do que o geralmente demandado no ato da leitura.
Esses movimentos do corpo e para o corpo terão continuidade em seu último livro, Sons: Arranjos, Garganta, publicado em 2009, no qual as experimentações poéticas ampliam-se. Para Marcelo Flores, são as imagens do corpo, que formulam uma poética metalingüística e ao mesmo tempo emocional, as melhores deste livro.
Em um texto de 11 de agosto de 2008, chamado “O poeta verbivocovisual & multimedieval”, primeiramente postado em Modo de Usar & Co. e mais tarde em Cronópios, Domeneck reflete sobre o que seria a crise e possível fim da experiência escrita da poesia, em prol de outras formas de expressão do objeto poético, como a performance.
Esta crise teria se iniciado a partir de “Un Coup de dês”, poema ápice da escrita poética e concomitantemente início do fim da mesma. No esgotamento das possibilidades escritas, restaria ao poema um último recurso: a volta ao uso medieval do gesto. Para Domeneck, o dadaísmo, que organizava a performance em um cabaré, trazia de volta a voz, o corpo, sem prescindir do objeto escrito. Neste texto, o poeta defende que a poesia extrapole os limites do livro, e que o poeta contemporâneo utilize-se dos aparatos tecnológicos que o presente lhe propicia para que o gesto (de)componha os limites do poema. Cito um trecho onde ele dá a “receita” deste novo momento “corporal” da poesia:
“A receita é a seguinte: você pega o verbivocovisual concreto-joyceano literato e o compreende como formação-estrutura implícita e incluída toda no "verbo“ que forma o "verbi" deste vocovisual; a partir daí, você pode abrir a boca, escancarar a garganta e encontrar o "voco" real da poesia (muito anterior à literatura, ou letradura, como preferir), não o voco falsificado de sempre, o que se crê sonoro simplesmente por juntar vogais ou consoantes repetidas, mas o voco do corpo humano, da garganta em cordas; e por último você entende o visual como mais, muito mais do que o plano, achatado, bidimensional, designístico e gráfico para folhas de papel, e passa a entender o visual como performance, como gestual, como o corpo do poeta num corpo-a-corpo com seu público, seja em pessoa ou em vídeo, retornando a poesia a sua experiência coletiva, longe da noção século-18-ou-19 da letradura em leitura silenciosa, de olhos surdos e mudos na página. Voilá: poesia verbivocovisual de verdade, segundo as possibilidades tecnológicas de hoje.”
Em sua postura de poeta multimídia, Domeneck apresenta, então, toda uma proposta que atualiza as interações do corpo com a poesia, que vai além de recursos sonoros da arte poética, ou mesmo de manifestações em poemas eróticos. A receita é que a poesia seja atualizada pelo corpo vivo. Para um sujeito que está tão esmaecido, tornado objeto em um mundo de consumo e efemeridades, nada mais viril do que exercer sua potência impondo sua presença na materialidade explícita de seu corpo vivo.
Assim, quando retorno à pergunta inicial, “o que, afinal, a poesia deseja do corpo”, penso que é válido ouvir a voz da própria poesia. Para isso, cito pela última vez, dois versos de um poema de Domeneck: “meu corpo impede/ minha ausência”.
Em tempos da lógica do instantâneo, a premência da mercadoria abomina o velho, tornando obtuso tudo o que não é imediato, ao perpetrar a absoluta necessidade da aquisição do elemento novo como vital para a identificação de sua época. No entanto, este novo está sempre além, uma vez que não se fixa, e, nesta ânsia de ser contemporâneo, o presente acaba por se tornar uma armadilha. Assim, deixar-se capturar pelo presente significa estar sempre preso a uma constante sensação de anacronismo, de deslocamento de seu próprio tempo, o que implica não se definir em sua história e em sua subjetividade.
Este presente inapreensível torna-se o elemento que efetivará aquilo que Deleuze (1992) assume como a passagem da sociedade disciplinar, reflexão proposta por Foucault, para a sociedade de controle. Para Deleuze, este controle está relacionado principalmente com a hegemonia do marketing contínuo e ilimitado, levando o homem não mais ao confinamento, mas ao endividamento. Assim, sem que percebamos, em nossas próprias casas estaríamos cada vez mais sob o controle da mercadoria e, contraditoriamente, imersos em uma eterna falta. Incompletos no muito, nossas tentativas de subjetividade caminham no presente para um esvaecimento em que os objetos substituem os homens. Nada mais atual, pois, que a urgência do efêmero.
Tornados objetos, mergulhados no imediatismo, a pergunta retorna: o que deseja a poesia do corpo? O corpo é o nosso “em-si”, lugar onde nos habitamos. Na voz do Zaratustra de Nietzsche, uma das possíveis hipóteses: "Por detrás dos teus pensamentos e dos teus sentimentos, meu irmão, há um senhor poderoso, um sábio desconhecido: chama-se o Em si. Habita no teu corpo, é o teu corpo”.
Mas também é o corpo a falta, o próprio desejo, o outro que está sempre além, inalcançável: inanição, dor, dilaceramento. No eu, o tudo e o nada, a afasia permanente, a busca recorrente. Em outra palavra: Poesia, contemporaneidade. Nas palavras de Bergson, “nosso presente é antes de tudo o estado de nosso corpo”. Já o passado “é o que não age mais, mas poderia agir”; é “o que agirá ao se inserir em uma sensação presente da qual tomará emprestada a vitalidade”). Dentro desta perspectiva bergsoniana, só o corpo nos presentifica.
Sujeito, objeto, terceiro gênero. Corpo-carne, integração do eu meleau-pontyano. Local. Pelo corpo, experimentamos o todo, saímos do eu e vivenciamos a linguagem e o ambiente. Para Cristiane Greiner, “A materialização da experiência no todo é sempre, e sob quaisquer circunstâncias, mediada pelo corpo em sua integridade”. Assim, a experiência corporal sempre é cultural, sempre diz ao eu e ao outro. O corpo recategoriza a memória, que sempre retorna de maneira revisitada pelos humores deste em-si. Sujeito e objeto - pelo corpo, o todo.
Esta promiscuidade é verificável nas metáforas do corpo que vão sendo construídas e assimiladas, inclusive no vocabulário científico durante os tempos. Atualmente é comum ouvir notícias que indicam um “mercado nervoso” ou livros que remetem ao “corpo político” ou “anatomia política” ou mesmo aos “sistemas orgânicos”. As ciências “incorporaram” as metáforas corporais e as sistematizaram. O corpo está em toda parte. A poesia o acompanha.
Depois da decantada experiência de choc de Baudelaire diante da veloz e anônima multidão do século XIX, modulando a voz do poeta moderno, quais são os desafios do sujeito lírico do século XXI, no qual mesmo dentro de casa, diante da tela de um computador, tornou-se anônimo e virtual? Pierre Lévy aponta para o “hipercorpo”, corpo contemporâneo, construído, público e “quase-privado”, atualização temporária, híbrico, social e tecnobiológico. Intensificado pelos esportes, drogas. Um corpo quase meu.
Não mais o choque, mas a eterna falta. A ad infinitum experimentação linguística dos poetas contemporâneos, a necessidade de uma busca. A crítica é unânime em apontar esta lacuna: o sujeito está em falta de si mesmo. O poeta experimenta formas, e cada vez mais se imiscui da expressão da experiência do presente. Se o choque vinha pela perplexidade diante de um tempo veloz e voraz que engolia os dias, hoje este tempo se acelera, e o poeta sente em seu corpo os efeitos dessa vertigem. A morte chega mais rápido? Ainda o grande assombro do poeta é viver a velocidade do tempo e a tragédia da poesia continua sendo uma tentativa de vencer a mortalidade.
A hipótese aqui levantada é que, ao inscrever o corpo na poesia, alguns poetas buscam representar um sujeito lírico esvaecido por um tempo fugaz de ausências, lacunas e efemeridades. A inscrição da corporeidade na lírica seria, então, uma das estratégias possíveis das faltas do eu e deste tempo.
Dos poetas contemporâneos que fazem uso deste recurso, Ricardo Domeneck destaca-se por obsessivamente remeter ao corpo. Sua poesia, marcada pelos bruscos enjambements, anacolutos e elipses, em movimentos de “dissolução das formas” (Pádua FERNANDES, 2010), apresenta um estilo “anfíbio” desde o primeiro livro (Carta aos anfíbios) e uma proposta que não desvincula o estético do ético, comprometida com o presente e com as experimentações líricas. Para Heitor Ferraz (2010), a poesia de Domeneck é “tensionada, questionadora, quase sem repouso ou espaços apaziguadores para o leitor”.
Em seu livro a cadela sem Logos, de 2007, o corpo figura como uma das metáforas recorrentes. A pretensa negação do Logos leva a uma hipertrofia da reivindicação do corpo, que intenciona agir “livre das funções”, lembrando o corpo sem órgãos de Artaud, contrapondo-se à visão sistematizada de Descartes. As sinédoques apontam para o corpo partido, o sujeito em sua desfunção, em sua vulnerabilidade e dor, totalmente submetido àquilo que Domeneck chamará de acaso, um dos grandes temas da poesia deste autor.
É na dor que o corpo buscará a percepção do mundo: “o corpo/ é o repositório de/ todos os ferimentos”. A dor masoquista, causada, que aflora na epiderme, é vasculhada em todas as suas nuances, em um exercício exaustivo de reflexão. Mas esta dor não é só explorada em seu sentir, ela é recorrentemente intelectualizada, o que será representado pelos corpos partidos, ou mais especificamente pela sinédoque, traço de estilo reiterado por Ivan Marques (2007, apontando pela substituição da metáfora pela metonímia, ou pela simples exposição de argumentos, ou prosa diagramada em versos, substantivos abstratos, uso e abuso da descontinuidade e dos anacolutos.
O corpo partido está disseminado em todo o livro, não só pelo vocabulário que explora vários órgãos e partes do corpo, mas também é por ele que o poeta conduzirá a configuração de um sujeito que está fraturado, sem utilidade, longe de sua língua materna, enfraquecido. O vocabulário impregna a poesia deste livro de referências a um corpo doente, que apresenta úlceras, cistos, vertigens, cicatrizes (“a sobrevivência exige/ incoerência e cicatrizes” – verso é repetido várias vezes – com variações”), alergias, erupções, feridas, pus, eczemas, escoriações, quelóide, esclerose, pneumonia.
No entanto, também o corpo partido remete ao jogo amoroso: “enquanto ele e/ ele abrem/ a boca permitem/ a visita ao estômago/ alheio minha garganta/ de mão dupla abre/ a passagem mais/ uma vez devo bastar” (p. 11). Os corpos dos amantes, descritos em partes, confundem-se, refletem-se um no outro, o eu e o tu se entrelaçam, e o verso curto, entrecortado pelo enjambement, reforça as etapas da exploração amorosa. Aqui, este recurso estético, hoje tão evidência na Teoria da poesia, encontra uma nova função: estabelece a pausa amorosa, acariciando parte por parte do corpo no verso que lhe cabe. Volto, porém, ao corpo dolorido, metáfora do sujeito desolado contemporâneo, como o que a seguir leio mais atentamente:
a subnutrição ocorre
não
diante do esvaziamento
do continente mas na
proliferação dos
conteúdos atravesse o
rio resoluto
o distante o
erro do
horizonte magro
a corrente dos
eventos que o
carregue para
a fonte dos fatos
o desejo a dieta
de todo um
século o móvel
o inconstante o sujeito
subsista subsista
na impaciência
do objeto fixo
pele e osso meu
filho você está
pele e osso (DOMENECK, 2007, p. 40).
Fragilizado, “pele e osso”, o sujeito está constituído proporcionalmente em oposição aos objetos, uma vez que à medida que um se dissipa, o outro se multiplica. O peso dos objetos opõe-se à leveza do sujeito (“pratico/com disciplina/a subnutrição”), que inconstante em um século de dieta e desejo, ou seja, faltas, está sendo carregado não mais pelos ventos, mas pelos “eventos”, trocadilho bem ao gosto das disposições anagramáticas que perpassam a poética de Domeneck.
Este sujeito subnutrido representa-se no poema pelo verso curto, veloz, e pelos reiterados enjambements que também se formam em movimentos ambíguos, ao poderem ser lidos como justaposições, o que ratifica a tensão dos sentidos. Assim: “a subnutrição ocorre/ não/ diante do esvaziamento/do continente mas na/proliferação dos conteúdos [...]” pode ser lida de várias formas, pausadamente, ou em continuidade, cortando o verso e ao mesmo tempo dando-lhe um caráter de extensão.
O enjambement, palavra em francês que indica transpor, saltar, significa também um vão, uma suspensão. Tal pausa e continuidade, diferenças possíveis de convivência são, para Agamben, em seu já antológico texto, a marca da identidade da poesia. Os poemas teriam sempre um enjambement, mesmo que fosse o “enjambement zero”.
Esta linha de pensamento nos leva ao seguinte raciocínio: o salto seria a marca da poesia. Aqui, em Domeneck, a imagem que se coloca é a do extravasamento, um conteúdo que não se contém no continente, rio-eventos levando o anêmico sujeito que não pode lutar contra essa corrente de um tempo negativo, reiterado pelo não que se apresenta isoladamente em um verso, recurso usado em vários outros poemas de Domeneck O advérbio “não” isolado no verso, colocado em uma posição estratégica, possibilita a negação do termo anterior e posterior, ao mesmo tempo que reitera seu sentido em si mesmo.
O prefixo “sub” marca a esfera do abaixo, do que se poderia ser, e repete-se no enfático “subsistir”. Em outras palavras: existir também só é possível sem grandes esperanças. O acaso novamente impõe-se ao sujeito. Em um tempo em que tudo é falta, a poesia de Domeneck aponta para a condição de um sujeito que não tem escolhas, mas que se sujeita ao irreversível.
Em outro poema, Domeneck afirma que “a subnutrição fará de nós/contemporâneos” (p. 95). É esta “dieta”, esta leveza, que leva o sujeito esmaecido, aqui expresso a tornar-se transparente, de vidro, “ele não gosta da/sensação de saber-se/de vidro [...]” (idem, p.19), lembrando a modernidade de vidro e aço que o arquiteto Mies e o escritor Scheerbart enunciaram, materiais esses em que, para Benjamin (1986), nada se fixa, metáfora de uma época em que a aura se desfez. Para combater esse caráter escorregadio do esquecimento, é necessário resgatar o nome, pregar etiquetas nas coisas para retê-las, como os habitantes de Macondo, no livro de Garcia Marquez, fizeram no afã de não perderem de vez a referência do mundo que os cercava e de si próprios. E é isto que a poesia, talvez, esteja querendo do corpo, a inscrição do nome, do tempo e da memória.
Na segunda parte de a cadela sem Logos, a poesia-corpo de Ricardo Domeneck já se dá de maneira mais performática, uma vez que o autor deixa “instruções” claras ao leitor de como os poemas devem ser lidos:
“O usuário desta sequência, poema-livro que busca a ressonância interna e interdependência de suas partes de que falou Jack Spicer em carta a Robin Blaser, poderá obter efeitos diferentes caso sua leitura ocorra sobre um gramado e sob o sol, de ressaca, ao som de Kate Bush; ou em seu quarto, sob cobertas no inverno, ao som de Cat Power; ou em qualquer meio de transporte público ao som de Yoko Ono – se o leitor em questão (em contexto desejar aproximar-se de algumas das atmosferas em que foi composta esta sequência. Ficarei muito feliz, porém, com as novas associações que o contexto alheio, estranho ao meu, produzirá neste processo que já não me pertence.
Também gostaria de informar que estes textos cresceram por metástase.” (DOMENECK, 2007,p. 89)
Os segmentos deste poema-livro dentro do livro, aqui são denominados de faixas, ou seja, o leitor é levado a vinculá-lo ao vocabulário relacionado à música, solicitando-lhe um movimento corporal mais intenso do que o geralmente demandado no ato da leitura.
Esses movimentos do corpo e para o corpo terão continuidade em seu último livro, Sons: Arranjos, Garganta, publicado em 2009, no qual as experimentações poéticas ampliam-se. Para Marcelo Flores, são as imagens do corpo, que formulam uma poética metalingüística e ao mesmo tempo emocional, as melhores deste livro.
Em um texto de 11 de agosto de 2008, chamado “O poeta verbivocovisual & multimedieval”, primeiramente postado em Modo de Usar & Co. e mais tarde em Cronópios, Domeneck reflete sobre o que seria a crise e possível fim da experiência escrita da poesia, em prol de outras formas de expressão do objeto poético, como a performance.
Esta crise teria se iniciado a partir de “Un Coup de dês”, poema ápice da escrita poética e concomitantemente início do fim da mesma. No esgotamento das possibilidades escritas, restaria ao poema um último recurso: a volta ao uso medieval do gesto. Para Domeneck, o dadaísmo, que organizava a performance em um cabaré, trazia de volta a voz, o corpo, sem prescindir do objeto escrito. Neste texto, o poeta defende que a poesia extrapole os limites do livro, e que o poeta contemporâneo utilize-se dos aparatos tecnológicos que o presente lhe propicia para que o gesto (de)componha os limites do poema. Cito um trecho onde ele dá a “receita” deste novo momento “corporal” da poesia:
“A receita é a seguinte: você pega o verbivocovisual concreto-joyceano literato e o compreende como formação-estrutura implícita e incluída toda no "verbo“ que forma o "verbi" deste vocovisual; a partir daí, você pode abrir a boca, escancarar a garganta e encontrar o "voco" real da poesia (muito anterior à literatura, ou letradura, como preferir), não o voco falsificado de sempre, o que se crê sonoro simplesmente por juntar vogais ou consoantes repetidas, mas o voco do corpo humano, da garganta em cordas; e por último você entende o visual como mais, muito mais do que o plano, achatado, bidimensional, designístico e gráfico para folhas de papel, e passa a entender o visual como performance, como gestual, como o corpo do poeta num corpo-a-corpo com seu público, seja em pessoa ou em vídeo, retornando a poesia a sua experiência coletiva, longe da noção século-18-ou-19 da letradura em leitura silenciosa, de olhos surdos e mudos na página. Voilá: poesia verbivocovisual de verdade, segundo as possibilidades tecnológicas de hoje.”
Em sua postura de poeta multimídia, Domeneck apresenta, então, toda uma proposta que atualiza as interações do corpo com a poesia, que vai além de recursos sonoros da arte poética, ou mesmo de manifestações em poemas eróticos. A receita é que a poesia seja atualizada pelo corpo vivo. Para um sujeito que está tão esmaecido, tornado objeto em um mundo de consumo e efemeridades, nada mais viril do que exercer sua potência impondo sua presença na materialidade explícita de seu corpo vivo.
Assim, quando retorno à pergunta inicial, “o que, afinal, a poesia deseja do corpo”, penso que é válido ouvir a voz da própria poesia. Para isso, cito pela última vez, dois versos de um poema de Domeneck: “meu corpo impede/ minha ausência”.
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