O deputado Rubens Bueno (PPS-PR) está propondo um projeto de lei (326/11)que obriga o recém-graduado da universidade pública a prestar serviço à comunidade por 6 meses. O deputado mostra uma terrível ignorância quanto à realidade do ensino superior federal e também o total descomprometimento com a educação. É interessante perceber que uma proposta dessa ingerência parta de uma pessoa que se diz "professor", porque realizou estudos em um Curso de Letras, mas tudo se explica quando verifica-se que o tal senhor já está a mais 30 anos atuando como político. Analisemos os dois argumentos possíveis:
1) A proposta do deputado Rubens Bueno apresenta o argumento velho e desgastado de que a universidade pública serve a uma classe superior e que só há ricos nas federais. Não é verdade. Sou professora de uma universidade federal e tenho alunos que são faxineiros, empregadas domésticas. A maior parte está empregada no comércio, mesmo quando estudam de dia, cobrindo o outro período até à noite. Além do evidente cansaço, tais alunos sofrem dificuldades financeiras, porque uma universidade pública exige gastos com material e transporte. O sistema de cotas adotado, tão vulnerável às críticas da elite, abriu também vagas para segmentos sociais que não são privilegiados. Em uma universidade federal, o ingresso não ocorre somente pelo vestibular, mas também por outros processos (cada universidade escolhe o seu), que favorecem aqueles que, de alguma forma, sofrem um prejuízo social. O ENEM propõe uma medida que gradativamente trará uma certa possibilidade de igualdade no ingresso à universidade pública. Assim, o correto seria o deputado RUBENS BUENO fugir da banalização e dos lugares comuns, e fazer a lição de casa, ou seja, trabalhar com dados concretos.
2) O deputado aciona, em sua proposta, uma posição que vem da afirmação de realidades muito diferentes de nosso país. O brasileiro não se gosta, acha que tudo que é proveniente do exterior é mais bonito, mais gostoso, mais civilizado. Um eterno sentimento de inferioridade que foi muito bem representado na literatura, o que RUBENS BUENO deve saber, já que fez Letras. Pois então, é fato que as grandes universidades são pagas em países europeus e nos EUA, no entanto, estamos comparando duas culturas de extremos. O empresário brasileiro não se compromete com a Educação, não desenvolveu essa prerrogativa, e está mais preocupado com o que lhe dá lucro imediato. O PIB desses países não é comparável com o nosso. Lá, os pais abrem uma poupança para o filho quando ele nasce, para que eles possam ser enviados para a universidade. Não consigo imaginar um pai brasileiro, que ganha um ou dois salários mínimos, conseguir viabilizar em seu orçamento, uma poupança para a educação do filho. O deputado RUBENS BUENO se esquece de algo que costuma ser muito lembrado nas campanhas: em nossa realidade e legislação, A EDUCAÇÃO É RESPONSABILIDADE DO GOVERNO! Estudar em uma universidade pública não é privilégio, é direito do cidadão. O país só tem a ganhar com a profissionalização adequada dos jovens. Não se pode punir àquele que recebeu educação pública, por mérito, inclusive. As desigualdades têm que ser pensadas por outros parâmetros, ou seja, na raiz dos problemas, como as relações patrões-empregados, e os privilégios econômicos dados pelos políticos a empresários, bancários, etc.
Como sempre, a política, que hoje não mais nos espanta com os descabidos e revoltantes torneios de vaidades, vem prestar um desserviço àqueles que ela deveria servir. Os políticos precisam começar a fazer um esforço para reconquistar, no mínimo, o bom senso, senão não haverá forças ou retóricas suficientes que os faça durar. E o deputado Rubens Bueno é um bom exemplo dessa desilusão que estamos vivendo com os políticos de profissão. É um nome (RUBENS BUENO) para não se esquecer no momento adequado.
quinta-feira, 21 de julho de 2011
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